Mês da Bíblia 2016 Estudo do livro do Profeta Miquéias

“Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar com Deus" (cf. Mq 6,8).

 

Mais uma vez temos a oportunidade aprofundar um pouco mais um livro da

Bíblia. Este ano é o livro de Miqueias. A definição do tema e do lema para o mês

da Bíblia de cada ano cabe à CNBB através de sua comissão bíblico-catequética.

Nos últimos quatro anos, estudamos os Evangelhos sob a perspectiva de “Discí-

pulos Missionários” que correspondia à primeira parte do tema da Conferência

de Aparecida. Para os anos que se seguem, optou-se por desenvolver a segunda

parte do Tema de Aparecida: “Para que n´Ele nossos povos tenham vida.”


Nesta oportunidade, vamos buscar conhecer melhor a Palavra de Deus e através

dela iluminar as situações onde a vida está mais ameaçada. Eis o projeto de estu-

do já definido pela CNBB: Em 2016: a vida em família (Miqueias); em 2017: a vida

em comunidade (I Tessalonicenses); em 2018: a vida em sociedade (Sabedoria); e

em 2019: a vida em Deus (I João).


Assim, nos ocupamos de Miqueias com o lema: “Praticar a justiça, amar a miseri-

córdia e caminhar com Deus” (cf. Mq 6,8). Que, em certo sentido se aproxima da
Exortação Apostólica do Papa Francisco sobre a “Alegria do Amor” – Amoris Lae-

titia (AL) – que reúne os resultados do Sínodo da Família que ocorreu em duas

etapas, uma em 2014 e outra em 2015 e trouxe a questão da família para o cora-

ção da Igreja e do mundo. É com a ajuda de alguns textos desta Exortação que

vamos direcionar o estudo do Miquéias para que seja uma luz para nossas famí-

lias diante da situação atual em que vivemos. 


Miqueias é um profeta de origem rural. Foi marcado pelos conflitos da vida no

campo onde pequenos agricultores eram pressionados e prejudicados por lati-

fundiários.


Sua região foi invadida e saqueada pelos assírios (cf. Mq 1,10-15; 2Rs 18,13) e isso

o obrigou a migrar para Jerusalém. Mesmo assim, não faz disso uma oposição à cidade, ambiente em que ele desenvolve sua missão. 


A terra de Miqueias era também uma zona militarizada, com fortalezas dos judeus e, possivelmente, postos avançados do Império Assírio. Isso gerava um clima de forte insegurança para a população. Miqueias viveu num período de três reis importantes: Joatão (que reinou de 740 a 735), Acaz (de 735 até 716) e Ezequias (de 716 até 687). Mas sua ação se desenvolve unicamente durante o reinado de Ezequias, entre 727-701 a.C., sendo contemporâneo de Isaías.


Sobre o livro de Miqueias, há um consenso de que os capítulos 1–3 são dele mesmo e que os capítulos 4–7, seriam de um discípulo de Miqueias, ou até mesmo de um profeta anônimo. Mas este é o texto canônico que temos na Palavra de Deus e o mais importante é compreender a mensagem no seu conjunto. Deus dirige sua Palavra para defender a vida, a família e a justiça para o seu povo. É nesta perspectiva que devemos ler o livro de Miqueias, no seu todo, buscando uma luz para ajudar nossas famílias em tempos de crise e dificuldades variadas.

Quem como Deus?

O nome “Miqueias” vem do hebraico e significa “Quem como Deus”, indica a grandeza do Deus de Israel. A vida e a missão de Miqueias serão uma revelação da grandeza de Deus diante da situação sofrida do povo. O profeta vem de Morasti, região fértil e produtiva na época, uma aldeia a 35 km de Jerusalém, hoje, região da faixa de Gaza. É preciso atenção para não confundir este profeta com outro Miqueias, filho de Jemla (cf. 1Rs 22,8-9.13-28), que viveu um século antes, época do rei Acab (874-853 a.C.). Miqueias tem um olhar profundo sobre os acontecimentos de seu tempo e neles descobre a ação de Deus. Ele “viu” a Palavra. Para ele, a Palavra de Deus não é algo só para ser escutado, mas para ser visto (cf. Is 2,1 e Am 1,1). Ela é tão concreta que o profeta pode vê-la! Miqueias nos aponta outro modo de olhar para a Palavra de Deus. Trata-se de uma Palavra viva, presente em nossa vida, na vida de nossa família e de nossa comunidade. Uma Palavra que
toca a nossa realidade concreta e que deve ser colocada em prática. Uma Palavra que nos conduz a uma espiritualidade sadia. Que nos faz capazes de ter um olhar mais profundo sobre a realidade e nela descobrir a ação de Deus. Uma Palavra viva que devolve a esperança para seu povo.


Para entender melhor o tempo de Miquéias, é preciso lembrar que após a morte de Salomão (em 933 a.C), aconteceu a divisão do povo de Deus em dois reinos (cf. 1Rs 12,1-24). A Samaria tornou-se a capital do Reino do Norte (Israel ou Jacó) e Jerusalém (ou Judá), a capital do Reino do Sul. O povo dividido se desviou do projeto de Deus cedendo à injustiça, à violência e passaram a adorar outros deuses.


A Samaria tornou-se o símbolo da cidade que se afastou do Senhor e onde acontecia todo tipo de crime. O tempo de Miqueias foi muito difícil. O povo perde sua terra, perde a sua casa. A família perde o seu espaço fundamental de vida. Os reis são obrigados a pagar pesados impostos à Assíria e essa cobrança recai diretamente sobre os camponeses pobres. Com a queda da Samaria, o povo desce para Jerusalém. Há uma corrida por terra e casas. 


Os pobres novamente são expulsos de suas terras e suas casas, maior sofrimento para as famílias. Por isso vemos que o Senhor desce à terra e instaura um tribunal para julgar as cidades. Miqueias usa perguntas que não precisam de resposta em voz alta, mas fazem pensar e levam a uma conclusão: Qual é o crime de Jacó? Não é Samaria? E quais os lugares altos de Judá? Não são Jerusalém? (Mq 1,5). Jerusalém é acusada por não praticar a justiça. Até mesmo o culto ao Senhor virou idolatria e é usado para tentar manipular a Deus. Miqueias chama de “pagas de prostituta” às ofertas (moedas ou objetos de ouro e prata) que eram deixados para as sacerdotisas (prostitutas sagradas) e que depois eram fundidas e usadas para modelar estátuas dos deuses. Por isso, “a desgraça desceu de Javé até as portas de Jerusalém” (Mq 1,12).


Infelizmente ainda hoje, muitos cultos falam de Deus e sobre Deus, mas estão longe da justiça, abusam da boa fé do povo e muitas vezes exploram as pessoas. Ao invés de luz, terminam por ser um peso para as famílias. Fazem verdadeiro comércio de milagres e de “coisas sagradas”. Miqueias deixa claro que se o culto e a oração não são acompanhados da prática da justiça e da misericórdia, eles não agradam a Deus.


Palavra do Papa Francisco: “O enfraquecimento da fé e da prática religiosa, nalgumas sociedades, afeta as famílias, deixando-as ainda mais sós com as suas dificuldades. Os Padres disseram que ‘uma das maiores pobrezas da cultura atual é a solidão, fruto da ausência de Deus na vida das pessoas e da fragilidade das relações. Há também uma sensação geral de impotência face à realidade socioeconômica que, muitas vezes, acaba por esmagar as famílias.’ (...) Frequentemente as famílias sentem-se abandonadas pelo desinteresse e a pouca atenção das instituições.” (AL 43) 

 

Para aprofundamento: Nossa participação nos cultos e missas têm nos levado a ser mais praticantes da justiça e da misericórdia em nossas famílias? Dê exemplos

 

 

Denilson Mariano

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